Banquinho de madeira

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Banquinho de madeira

  A noite estava quente, meus pensamentos percorriam o quarto, enquanto meus olhos fitavam o teto branco, marcado em preto, sujo, uma marca de bola que fiz aos 7 anos de idade, e que não me esqueço, principalmente pelo esporro que levei da minha mãe.
  Levei o banquinho de madeira a parede, abri a janela, e me sentei ali. Movia os olhos caminho a fora, observando a cidade, em meio ao negro da noite, acesa, carregando suas luzes em postes repletos de folhetos colados. Não sabia o que estava esperando, mas me encontrava todas as noites ali, sentado no banquinho de madeira.
  Cada dia, seu Antônio, o senhor da esquina, usa uma camisa xadrez de cor diferente, com seu cabelo lambido e olhos cansados. Os cachorros ficam latindo no portão da dona Tereza, e exatamente, após três latidos seguidos, ela sai jogando água na calçada, enquanto prende o seu cachorro no fundo do quintal, para poder dormir em paz. Um homem segue pela calçada, naquele mesmo horário, sempre de mochila e uniforme da empresa, que acredito ser de carteiro, nunca fui bom em ligar as coisas, não posso afirmar, não ainda.
  Mas exatamente ás onze e cinquenta, beirando meia noite, ela passa. Seus cabelos lisos, castanhos, brilhantes a luz da lua, que dançam na pista de suas costas, como um baile de quinze, vão e vem. Não sei de onde vem, não sei quando vai. Acompanho o requebrar em seu andar, e meu coração cantarola notas bem escritas, de vidas vividas, que passei ao seu lado, mesmo sem saber.
  Me levantei do banquinho de madeira, o guardei no canto do quarto, e fui dormir. Meu coração acelerado, se enroscou em suas notas, e gargalhou, na dança daquela pista, ele era o músico.
Não sabia o que estava esperando, mas me encontrava todas as noites ali, sentado no banquinho de madeira.

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