Recomeços


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Recomeços

Eu achei que as coisas fariam sentido agora, mas não fizeram, foi aí que percebi que o sentido sempre foi você. Era o primeiro dia que não te via esquentar o pão no café da manhã, e nem sentia seu cheiro pelos corredores. Bebi tantos copos de café que até perdi as contas, meu paladar parecia estranho, ou talvez o café, não sei o que aconteceu, mas não tinha o mesmo gosto. Talvez faltasse açúcar. Eu sabia que o doce estava na sua presença em cada vez que eu ia à cozinha e enchia meu copo, mas me negava a acreditar que o líquido que me dava energia diária, nunca fez efeito, e o meu corpo se animava com as forças vindas do seu. Eu achei que as coisas fariam sentido agora, mas não fizeram, foi aí que percebi que o sentido sempre foi você. Era o primeiro dia que eu não pendurava na janela da sala em que trabalho e observava a fábrica. Nem sei porque eu olhava tanto para lá, sempre fingi interesse nos produtos que os rapazes embalavam. Eu sabia que a graça era te ver contando cada caixa, carregando, e sorrindo ao olhar para mim. Dei tantas voltas pela empresa hoje, que posso me considerar atleta, acredita? Contei todos os degraus, apelidei cada rapaz da fábrica, que sempre chamávamos de “lenhadores”, e busquei caixas de papel sulfite, só para passar em frente a sua sala. Ou antiga sala. Abri dezenas de vezes nossa conversa no Skype, e em cada uma, olhava fixamente o status. Disseram que quando desejamos muito, os planetas se alinham a favor. Mas não te vi online. Talvez errei o planeta, ou eles se embaraçaram, estavam bêbados. Assim como eu, quando soube que não te veria sentado no nosso banco todos os próximos dias. Se me visse naquele estado, teria pena. Passei a noite na escada do Carrefour, chorei, me afoguei, esqueci meu nome. Esqueci onde morava, qual curso faço, fiquei tão bêbada que quase não me lembro daquela noite. Mas não te esqueci. Me mantive firme, fiel ao sentimento, decidida. Só sei o que me disseram, e olha, só falaram seu nome. Falaram de cada dia que saímos juntos, e de cada noite que tivemos. Falaram das risadas, e da vergonha que fiquei conhecendo sua mãe. Falaram das brigas, das lágrimas, das baladas que nos esbarramos depois do término e da insistência que meu coração tinha em não te deixar. Eu achei que as coisas fariam sentido agora, mas não fizeram, foi aí que percebi que o sentido sempre foi você. Era o primeiro dia de muitos, e o banheiro ouviu isso centenas de vezes. Nem precisei falar, apenas me sentei na tampa do vaso e deixei as lágrimas descreverem. Me perguntei o porquê de chorar, o porquê de sentir e de não seguir. Eu sabia que você estar aqui ainda não mudaria os fatos, e o gelo entre nós permaneceria, mas sabia que te olhar me dava esperança, lá no fundo, bem lá no fundo, e cada noite em que me deitava na cama, podia pedir aos céus que no outro dia você acordasse mudado e decidisse me ter, voltar. Era o primeiro dia de muitos, e um dia antes do primeiro, foi o último. Seu último, nosso último, meu último. Agora você seguiria, recomeçaria. Eu achei que as coisas fariam sentido agora, mas não fizeram, foi aí que percebi que o sentido sempre foi você. Te desejo um grande recomeço, com novas página, novos sorrisos lindos e novas pernas. Que seu recomeço seja incrível, tão incrível que queira voltar para me contar, para gargalhar, e talvez assim, queira ficar.

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